sexta-feira, 23 de setembro de 2016

o cachimbo

Lembro-me bem do cheiro mas o que me impressionava era o ritual. Observava-o enquanto, minuciosamente, colocava e amassava o tabaco, com uma apropriada dose de firmeza. Acendia-o com inalações languidas, compassadas, preguiçosas, como que arejando a sua mente das preocupações  terrenas. Havia nos seus gestos, em todo este processo, algo de transcendente e metafísico. Sentia o meu Pai satisfeito, relaxado, bem chegado a casa, depois de, como ele dizia (e ainda diz, às vezes, com os olhos arregalados e plenos de si, um patriarca preocupado com  a sua prole), "ganhar a vida". Lentamente, o fumo saia-lhe da boca e expelia, em bafos longos, um fumo branco e espesso que ficava a passear por ali, a planar no ar. 

Meu querido Pai: esta frágil satisfação, este seu breve contentamento, confisco-os eu, hoje, agora,  deste sítio tão longe de si, para mim, para que os transforme em memórias de uma infância quente e aconchegante.

Bem haja.




terça-feira, 20 de setembro de 2016

Jornal i #78 - Julia Louis-Dreyfus: a Meryl Streep dos Emmys

Hoje para o i,

Será Hillary Clinton a primeira mulher à frente dos destinos dos Estados Unidos da América (EUA)? Não creio. Pelo menos, na televisão já existe uma mulher aos comandos do mundo livre e ocidental: Selina Meyer, interpretada por Julia Louis-Dreyfus em “Veep”, uma sátira política que reverte a visão ideal de clássicos como “The West Wing”. 

Não exagero quando digo que Julia Louis-Dreyfus ficará para a história da comédia. E o seu desempenho enquanto Elaine Benes, na melhor série do estilo (“Seinfeld”, claro), surge como um pequeno preâmbulo para o papel de “Veep”, a vice-presidente narcisista que, quase por acidente, será “Madam President”, uma poderosa mulher de tailleur com todas as fraquezas de uma pessoa normal, mas arrogância e ganância monstruosas.

Sobrevivendo a vários embaraços políticos, gafes e “gates”, com um look semelhante ao de Sarah Palin, com comportamentos e comentários inapropriados mas com um olhar e postura angelicais, Louis-Dreyfus combina uma pequeníssima (literalmente) presença física e uma aparência adorável com o efeito devastador da sua passagem pelos corredores da Casa Branca, insultando e praguejando com o staff em seu redor e gerindo o caos com uma capacidade única de afirmar banalidades e clichés.

Curiosamente, se Hillary perder, creio que assistir a “Veep” é uma antecipação da futura administração de Trump. Há semelhanças, por exemplo, em matéria de gafes: Trump errou a propósito do 9/11 chamando a essa terrível data 7/11 e ocorrem-me várias citações descabidas de Meyer. Mas há mais pontos em comum, como a denúncia da legitimidade de candidaturas à Casa Branca de certos políticos: Trump apresentava a dupla cidadania (EUA-Canadá) de Ted Cruz e Meyer questionava o local de nascimento de um governador com origens asiáticas.

No momento atual, em que as séries invadiram os nossos hábitos diários, Julia Louis-Dreyfus é, por comparação, uma espécie de Meryl Streep dos Emmys: seis nomeações seguidas com “Seinfeld” e quatro com “The New Adventures of Old Christine”. Com “Veep” foi quatro vezes nomeada e premiada no espaço de 25 anos. Ontem à noite, depois de, num discurso, reconhecer que a série “parece mais um documentário da realidade”, recebeu o quinto Emmy de melhor atriz em série de comédia.

domingo, 18 de setembro de 2016

Veep


 
                                 
 

Pela 5ª vez consecutiva Julia Louis-Dreyfus vence o Emmy de melhor atriz em série cómica. Sempre fui sincera a propósito das minhas afinidades com Selina Meyer.