terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Jornal i #98 - A esquerda já não é o que era

Hoje para o i,

Álvaro Santos Pereira, Maria Luís Albuquerque, Rui Machete, Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz. São cinco nomes, numa lista muito incompleta, de alguns dos ministros aos quais o BE dirigiu um pedido de demissão, num passado não muito distante, acusando-os justamente de mentir ao parlamento e aos portugueses. 

Bom, o PCP sempre foi menos comedido e momentos houve em que pediu a demissão de todo o executivo. Uma simples pesquisa no Google confirma-o. O que faz o nosso primeiro-ministro? Mantém total confiança política e remata a questão para canto: afinal, tudo se trata de uma “trica”. Como se o escrutínio que à oposição se exige, com toda a legitimidade democrática e constitucional, fosse uma futilidade circunstancial.

Melhor teria andado se encomendasse um novo código de conduta ou anunciasse uma comissão para estudar a ontologia da mentira na pós-modernidade. Quanto ao nosso Presidente da República, limito-me a dizer o que já foi escrito neste jornal: “Há um papel, sr. PR.” É inevitável que a falta de credibilidade de Mário Centeno contagie o nosso chefe de Estado e acentue a sensação de orfandade à direita que já se fazia sentir.

Já não espanta que, enquanto apoiantes do atual governo, BE e PCP adotem uma postura passiva, contrária à agressividade demonstrada no passado. Porém, não deve passar despercebida a aceitação, por um partido comunista e outro trotskista, das reivindicações de um banqueiro ou da elaboração, por um escritório de advogados, de uma lei à sua medida.

O episódio da CGD anuncia uma nova esquerda em Portugal: uma esquerda menos guerrilheira, uma esquerda complacente com os “esquemas” do Estado de consultadorias externas e comprometida com a promiscuidade entre o setor privado e o setor público – aspetos que sempre denunciou.

Com estas concessões de ordem “prática” (para não chamar outro nome), a base do seu discurso ideologicamente cerrado sai, naturalmente, fragilizada. Este é um elemento que não deve ser ignorado num momento de grande preocupação social com a ascensão de “populismos” na Europa.

Há boas razões para acreditar que os fracassos das promessas comunistas e, em geral, o desgaste da velha retórica moralista à esquerda, bem como o esvaziamento ideológico que lhe subjaz, criaram o espaço de manobra que permitiu a ascensão, por exemplo, da Frente Nacional, que colhe votos junto de eleitores comunistas e socialistas. Isto dito, não antevejo um movimento semelhante no nosso país, mas este episódio tornou evidentes as debilidades (políticas e éticas) dos partidos à esquerda também por cá.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Jornal i #97 - "Moonlight" e "The Wire": a busca por um projeto de felicidade

Hoje para o i,

A comoção com “Moonlight”, a longa-metragem de Barry Jenkins com 8 nomeações para os óscares, tem sido geral. Não sou exceção. Não sei do que gostei mais: se das belíssimas imagens, da banda sonora ou da história. Baseada no texto não publicado “In Moonlight Black Boys Look Blue”, de Tarell Alvin McCraney, um autor que cresceu em Miami, no bairro de Liberty City, onde o filme se desenvolve, a narrativa centra-se numa personagem, Chiron - pobre, negro, homossexual, criado por uma mãe (Naome Harris) que luta contra um vício de crack -, ao longo de três fases diferentes da sua vida. Se Chiron representa o violento “way of life” dos afro- -americanos que vivem marginalizados nos subúrbios das metrópoles americanas, também é verdade que a marginalidade de Chiron é existencial. A sua alienação manifesta-se, logo em menino, num rosto vincado, um olhar sério e desconfiado, uma postura frágil, de temor e de hipervigilância, de quem desde criança se viu obrigado a defender-se de tudo e de todos. Retraído, pouco sorridente, o espetador quase não o vê brincar, o que facilmente se compreende como inevitável naquela dolorosa experiência de vida. A empatia com Chiron é talvez o ponto mais forte do filme, em muito devida à intensidade notável da representação dos três atores escolhidos para cada uma das fases retratadas.

Tem-se dito que este é um filme dos nossos tempos - “trumpianos”, entenda-se. Não concordo. O filme de Jenkins desenvolve-se como um episódio da segunda melhor série de sempre: “The Wire” (quanto a mim, “Os Sopranos” está no topo da hierarquia). Está certo quem diz que “Moonlight” se aproxima de uma recriação lírica de um episódio de “The Wire” realizado pela francesa Claire Denis, uma das referências de Jenkins. É que acompanhar a história de Chiron é relembrar os “boys of summer” em todas aquelas crianças de West Baltimore. Assistir à quarta temporada de “The Wire” é como testemunhar um acidente de comboio em câmara lenta: desde o início sabemos que Dukie, Randy, Namond, Michael serão “corner boys” e, mais cedo ou mais tarde, absorvidos pelo mundo implacável que os rodeia. Quando chega esse momento - algo a que somos poupados em “Moonlight” -, o estrondo é devastador. Quem esquece aquela mítica cena final do episódio 11 entre Randy, que acaba de perder a mãe, e o detetive Carver? Eu não.

Correndo o risco de elaborar uma generalização simplificada ou uma categorização pueril, “The Wire” é, tal como “Moonlight”, uma saga sobre a afirmação da individualidade, um documentário sobre a luta por um lugar no mundo, por uma identidade, por um projeto de felicidade, por uma vida diferente das circunstâncias de pobreza, corrupção, droga e violência que envolvem aquelas crianças. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

uma sociedade que não quer abdicar de nada

"A sociedade atual vive, portanto, enredada numa inextricável teia de paradoxos: promove um desenvolvimento técnico e cientifico acelerado, ciente de que assim gera problemas a um ritmo superior ao da sua própria capacidade para produzir o conhecimento necessário à sua resolução; exige cada vez maior segurança, num cenário que é precisamente marcado pela multiplicação e pela globalização dos riscos; reclama (e recebe) do Estado níveis de intervenção social e de atuação (preventiva e sucessiva) cada vez mais elevados, ignorando a situação de sobrecarga em que essas exigências o colocam, e retribuindo-lhe com desconfiança e insatisfação permanentes. Trata-se, bem entendido, de uma sociedade em que parece não querer abdicar de nada: nem das oportunidades e altos índices de bem-estar proporcionados pelo vertiginoso progresso tecnológico e científico; nem de elevados níveis de segurança para os bens que considera mais precioso e se encontram garantidos por um estatuto jurídico que assenta sobre extensos catálogos de direitos e liberdade. Sobretudo, é uma sociedade confinada ao tempo presente, que vive como se não houvesse futuro ou, pior, transferindo para as gerações vindouras muitos dos custos - ambientais, financeiros ou político - decorrentes das suas próprias opções e dos seus próprio modelos de desenvolvimento."


Jorge Pereira da Silva, Deveres de proteção de direitos fundamentais, Universidade Católica, 2015, p. 12.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

bingo



"O risco da tecnologia é que nos distraímos. Distraímo-nos pelo que fazemos e não por aquilo que somos. Podes fazer muita coisa com um smartphone na mão ou com o Echo, em casa. Essa capacidade de seres constantemente produtivo não é a mesma de seres reflexivo e pensativo, de estares focado no que significa realmente existir. Estamos tão ocupados a pedalar que não paramos e olhamos para as coisas que realmente interessam, para o que se passa nas nossas vidas ou no mundo em geral. (...) Aquilo que o digital faz, e particularmente o nosso telefone, é que cria um mundo de oportunidades ilimitadas do potencial que existe por aí. Tudo o que está acontecer a toda a hora nos outros sítios é mais sedutor do que o que se está a passar à tua frente, agora. Isso faz com que seja mais fácil para as pessoas perderem atenção sobre a sua família ou sobre o que acontece à volta delas, porque deve haver algo muito mais interessante a acontecer noutro sítio. Podes ver isso pela forma como as pessoas respondem às mensagens que recebem no telefone. Alguns de nós acreditam que a mensagem que está a chegar é a mensagem que vai dizer “eu amo-te” ou que ganhaste um milhão de euros ou que vais ter aquela grande promoção que querias tanto. Mas nunca é. É ocasionalmente, uma vez de cinco em cinco anos, se tiveres sorte. E depende da mensagem.

Acho que esse potencial do que está lá fora e o facto de termos acesso ilimitado a toda a hora, faz com que estejamos cada vez mais ligados a qualquer coisa. À medida que te ligas a tudo, o potencial do que está lá fora torna-se muito mais atraente do que o potencial que tens à tua frente. Quando isso acontece perdemos o foco e a capacidade de estarmos no momento. E acho que isso traz algumas ameaças reais sobre como realmente comunicamos e interagimos com as pessoas à nossa volta."

Entrevista a Mark Curtis, no Observador.